Não sou de modas, nem de seguir tendências. Mas há coisas no mundo que me irritam e, por isso, não posso resistir a falar sobre a mais recente polémica no mesquinho e burguês mundo dos influencers e das socialites de Portugal: a música BFF, do Valete.


Quem me vê nas redes sociais sabe que gosto de aparvalhar e publicar stories e posts infinitos a falar sobre a minha vida, e sobre as minhas opiniões sobre as coisas mais casuais da vida, como se alguém quisesse saber disso para alguma coisa. A verdade é: ninguém quer saber, porque não sou realmente uma influencer.

Mas se eu fosse, estão a ver,  se eu fosse uma atriz ou uma blogger ou outra criatura qualquer pseudo-famosa, todos iam ouvir o que eu tinha para dizer. Fosse a maior borrada do mundo (ou não). 

Publiquei há dias um texto onde falava sobre um filme altamente polémico, que muitos consideram desrespeitoso e altamente inapropriado - e onde eu vejo apenas arte.
Perdoem-me aqueles que acham que eu sou capaz de ver arte num caixote do lixo - não sou, e tenho dificuldades tremendas, por exemplo, em entender os quadros de Arte Moderna, por exemplo, que têm dois riscos e um círculo.

Mas há-de ser arte para alguém.

O problema da arte (que não é problema nenhum) é que a arte conta histórias. Não necessariamente as histórias passadas pelos artistas. O "Safe Haven" não conta uma história de violência doméstica vivida pelo Nicholas Sparks e, ainda assim, ninguém se queixa da história por falar em violência doméstica. Ninguém vê o "Saw" e acha que o James Wan é um psicopata que adora torturar pessas. Ou que aprova a tortura de seres humanos.

Quem vê este quadro de Jules David acha que o pintor era um agressor ou limitava-se a contar uma história que era tão comum à sua volta?
Interior Painting - Vice And Virtue   Misery by Jules David
Vice And Virtue Misery, Jules David

Tenho uma questão muito simples: se todos entendemos que estas são apenas obras de arte, que contam uma história e nada têm a ver com as crenças dos artistas que as teceram, porque é que de repente decidimos atacar o Valete quando cria uma música a falar sobre um homem que vai matar a mulher e o amante, que encontrou juntos na sua cama?

Música também é arte. E música também conta histórias. O problema está, muito honestamente, em quem houve. As pessoas estão desesperadamente à procura da música que conta a vida delas, a grande "música da sua vida", que podem ouvir repetidamente enquanto aquela história faz sentido na sua vida. E esta busca é muito resultado dos próprios músicos repetirem "este album é composto de músicas que escrevi sobre experiências que tive na minha vida".

Spoilers: nem todas as músicas têm por trás uma história verídica, da mesma forma que nem todos os filmes e livros são sobre pessoas reais.

A música "BFF" do Valete não tem de ser nem uma história real do Valete nem tem de ser a opinião do mesmo sobre a violência doméstica. A música do Valete conta aquilo que ouvimos todos os dias quando acendemos a televisão ou abrimos os jornais: que centenas de mulheres continuam a morrer todos os anos às mãos de homens violentos. Não tem nada de sexista nem tem de ser vista como um ataque ao feminismo. Não o é. E quem não consegue distinguir arte de opinião pessoal, tem problemas bem mais graves para resolver que a luta pelo feminismo.