Nunca conheças os teus ídolos


É comum ouvirmos a frase "não conheças os teus heróis". Há páginas e páginas de textos e histórias na internet de pessoas que conheçeram o seu actor favorito, o seu cantor favorito, a sua actriz favorita e que ficaram profundamente desiludidas quando eles se mostram altamente antipáticos e arrogantes. Eu não gosto dessa frase. Acho que é ridícula. 

Eu não tenho heróis. Não no sentido tradicional de "seguiria esta pessoa até à morte, independentemente daquilo que ela fizer". Claro que tenho uma queda ou duas (ou três, ou quatro, ou cinco... vocês entendem o que quero dizer) por umas quantas celebridades. Portanto, suponho que esses são os meus "heróis", que, apesar de não o serem no sentido literal de herói, mantêm a minha vida bem mais interessante aos domingos à tarde quando me recuso a fazer os trabalhos da faculdade. 

Já conheci um desses meus heróis. E já tinha ouvido a famosa frase que (penso eu) serve única e exclusivamente para nos encher de medo sem qualquer razão. Quem disse essa frase pela primeira vez teve, certamente, uma muito má experiência ao conhecer um dos seus ídolos. Tudo bem, acontece, não digo que não. Mas acho que essa história se deve muito simplesmente a um grande caso de azia e não a uma verdade universal. Eu percebo, Manuel, conheceste a Pamela Anderson e ela não era tão gira nem tão simpática ao vivo. Entendo que ficaste de coração partido. Alguma outra parte do teu corpo é capaz de ter sofrido uma desilusão, também. Mas já pensaste que, se calhar, ela não agiu da forma de que estavas à espera porque tens standards irrealisticamente (esta palavra existe, sequer?) altos? Se calhar não te apercebeste até a conheceres de que ela, tal como todos os outros seres irritantes com quem tu te dás, é meramente humana. E erra. E tem dias maus, em que só lhe apetece ir ao focinho de alguém. Já pensaste, Manuel, que se calhar a conheceste num dia mau? Ou tens uma cara parecida com o ex-namorado dela e a primeira coisa de que ela se lembra quando olha para ti é daquele cheiro horroroso que ele deitava da boca? Ou que se calhar ela odeia que lhe digam "sou teu fã" e tu disseste exactamente isso, deixando a pobre mulher num estado profundo de agonia?

Não tenho grande experiência em conhecer famosos. O Tony Carreira uma vez deu-me um beijinho na testa porque os meus pais foram ao restaurante onde ele estava a jantar e mandaram-me a mim, no lugar da minha mãe, pedir um autógrafo. Ele achou muita piada, então deu-me um beijinho. Um dos gajos que estava à mesa com ele disse "olha que sortuda, um beijinho do Tony Carreira! Aposto que nem vais dormir esta noite!". Spoilers: dormi bastante. 

O ano passado fui à Comic Con Portugal e conheci o Jason Isaacs (a sério, se não sabem quem é nem sei porque é que andam a ler o meu blogue). Foi das melhores experiências da minha vida e, não, não estou mesmo a exagerar. Podia ter sido muito fácil sair de lá desiludida, a odiá-lo e a nunca mais querer ver nenhum dos seus trabalhos. Pelo contrário, saí daquele fim de semana a adorá-lo ainda mais do que já o adorava. E porquê? Não sei. Talvez porque não tinha expectativas altas e muito pouco realistas daquilo que seria um encontro com uma pessoa igual a outras quinhentas que já conheci, com a pequena diferença que o seu trabalho é fingir ser outras pessoas. 

Há falta de humanização das celebridades. Hoje em dia, elas são colocadas num pedestal demasiado alto, do qual é muito fácil cair quando as conhecemos. Tudo bem, admito que é fácil esquecer que o Jason Isaacs é uma pessoa igual ao meu pai ou ao meu vizinho do lado quando a minha vida foi passada a vê-lo fazer de Lucius Malfoy, mas ainda assim é ridículo que eu não tenha a mínima capacidade mental para me relembrar, mesmo que seja só naqueles dez minutos que vou passar com ele, "epá, este homem se calhar está muito cansado porque anda de um lado para o outro há dias a dar autógrafos e a tirar fotografias. Estas luzes devem dar cabo deles. Estar um dia inteiro a interagir com serzinhos que nunca conheceu na vida, alguns deles demasiado exigentes, deve dar cabo da paciência dele". 

E se utilizaram, em alguma parte deste texto, o arguemento "mas as celebridades, ao tornarem-se famosas, já têm de estar à espera de ter fãs, não podem levar a mal só porque estão cansadas ou fartas", então gostava muito gentilmente de vos dizer que vocês também fazem parte do problema. É graças a pessoas como vós, que acreditam piamente que um famoso tem de sorrir só porque é famoso, que depois anda gente a chorar pelos cantos sempre que o seu ídolo não diz "amo-te muito, fã que nunca vi antes em toda a minha vida!"

Arranjem uma vida, pessoal. Vão ver que isso passa. 

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