Reciclar os contentores


Vivo numa terra pequena onde até encontrar um caixote do lixo que não esteja cheio até cima é uma tarefa árdua. E isso não acontece por causa da grande quantidade de habitantes na freguesia – em 2016, moravam 8001 pessoas em toda a freguesia, que inclui uma meia dúzia de terras para além daquela onde vivo. Não, eu não consigo encontrar um caixote do lixo que não esteja cheio até cima porque não existem caixotes do lixo suficientes.

Isto pode parecer uma não questão, mas começa a ser uma questão a sério quando querem meter o vosso lixo no sítio onde ele pertence e tudo o que conseguem ver é um conjunto de quatro caixotes do lixo que nem fecham de tão cheios que estão acompanhados por um sinal que diz “depositar lixo no chão dá direito a uma coima entre 250€ e 500€”. Portanto agora têm duas opções: metem o lixo no chão e arriscam-se a levar uma coima (e dão cabo do ambiente, mas sejamos honestos: quantos se preocupam realmente com essa coisa tão insignificante que é o único planeta que podemos habitar neste momento?) ou pegam nas vossas pernocas e vão, literalmente, colocar o vosso lixo noutra freguesia.

Meter o lixo no lixo não devia ser tão complicado, pensam vocês. Eu concordo. É ainda mais complicado quando, como eu, querem reciclar e poupar o meio ambiente da porcaria diária que fazem. É praticamente impossível reciclar aqui. Só há dois pontos de reciclagem numa terra que, acreditem, é pequena mas não tão pequena assim. Dois pontos de reciclagem não servem toda a gente. Eu moro numa zona onde existem pelo menos três cafés, um talho, uma mercearia, uma churrasqueira e uma mão cheia de prédios de habitação. Graças às grandes campanhas de sensibilização feitas no nosso país, a grande maioria destas pessoas recicla. E quantos pontos de reciclagem existem neste sítio? Um, porque o segundo ponto fica a uns bons minutos de carro. Portanto, existe um ponto de reciclagem para esta gente toda. Isso dá no quê? Contentores cheios¸ pois claro, e zero espaço para eu, como boa cidadã que sou, reciclar o meu lixo – que, entretanto, mesmo que quisesse, não podia colocar nos contentores normais porque também estão, diga-se, a abarrotar.

Já houve quem dissesse “Marta, pára de ser dramática. Podes simplesmente pegar no carro e ir a outro ponto de reciclagem meter o lixo se estás assim tão preocupada em salvar o ambiente”. Mas essas pessoas são burras, porque os gases que o meu carro deita também poluem, por isso ir de carro deitar fora o lixo é absolutamente contraproducente. É poluir para não poluir. Que se foda a lógica, não é?

Eis uma ideia: se querem que as pessoas não metam lixo no chão, metam mais caixotes do lixo na zona. Ou façam a recolha do lixo mais frequentemente, por exemplo. Isso ajudava não só o pessoal que quer deitar fora o lixo que tem em casa como ajudava o pessoal que não quer ratos ao pé de casa, apesar de eu achar que as pessoas que não querem ratos ao pé de casa estão apenas a ser extremamente picuinhas. Quem é que não adora aqueles pequenos fofos potencialmente portadores de imensas doenças?


Não tem muita lógica fazer campanhas de sensibilização a pedir que as pessoas reciclem em nome do ambiente se as pessoas não têm onde o fazer. É como proibir o estacionamento de carros num determinado sítio mas depois não oferecer nenhum estacionamento alternativo nas proximidades. Por enquanto, ainda não consigo inventar novos sítios para meter o meu lixo, por isso vou precisar desses contentores disponíveis, por favor. Sem desculpas. Caso contrário, vou ter de começar a levar o meu lixo para a casa dos presidentes da Junta, Câmara e afins; sabem, os responsáveis pela recolha do lixo, que estão a fazer um serviço mais merdoso do que aquilo que está nos contentores que eles não esvaziam.

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