E não viveram felizes para sempre


Os meus pais nunca me leram histórias de encantar quando eu era criança. Eu também não as lia, para ser honesta. O maior contacto que tive com essas histórias foi quando, no quarto ano, a minha professora primária ofereceu aos alunos (tenho uma vaga ideia de ser apenas aos favoritos, mas posso ter distorcido isto a meu favor) um livrinho com uma história - e eu recebi o Pinóquio. Também li, algures na minha infância, a Pequena Sereia, mas li a versão triste, em que ela acaba a desfazer-se em espuma do mar porque não consegue conquistar o príncipe. Agora que penso nisso, acho que tinha uma colecção inteira de livros com histórias de encantar que se aproximavam mais às originais escritas pelos irmãos Grimm - histórias com alguns detalhes mais negros. Lembro-me de ler um Hansel e Gretel, por exemplo, em que as crianças não se tinham perdido, mas tinham, sim, sido abandonadas na floresta para morrer.

O resultado da minha fraca (ou quase inexistente) interacção com estes contos é, então, a minha profunda descrença na frase "e viveram felizes para sempre". Veja-se, não só não acredito na frase como tenho dificuldades em aceitar quem tenta persegui-la como se dela dependesse a sua felicidade nesta terra.

Vamos por partes - nada dura para sempre. Pode parecer difícil aceitar o conceito de efemeridade, mas tudo é efémero. As coisas não duram o tempo que nós queremos que elas durem - duram o tempo que têm de durar. Já dizia Fernando Pessoa: o amor romântico pode ser comparado a um traje. "Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura". (Acreditem que é dramático eu estar a citar Fernando Pessoa, que é possivelmente o autor português que mais quero ver longe de mim; mas não nego a genialidade daquilo que escreve.)

Assim, o amor dura até já não durar; dura até alguém se cansar, dura até uma das partes encontrar alguém melhor, dura até ao dia em que um dos membros do casal decide que quer dedicar a sua vida a Deus e não a outro ser humano. Sei lá, estou a inventar; nem todas as relações acabam porque alguém decide virar padre ou freira. Mas a ideia principal é que não tem de durar para sempre - mas certos seres humanos, desesperados, coitados, acham que tem de durar. Amor que não dura não presta. E não estou só a fazer suposições sobre a possível existência desses seres que acham que só serão felizes quando encontrarem o seu amor eterno; já vi e ouvi pessoas na televisão a explicar que todos nós devemos fazer um esforço para procurar o the one. Que devemos incutir aos nossos filhos ou afilhados ou sobrinhos a ideia de que só serão felizes quando encontrarem o the one.

Porra para o the one. A não ser que estejam a falar do perfume da Dolce & Gabanna (e aí acredito plenamente que só serão felizes quando o tiverem nas vossas mãos), o the one não é nada senão um conceito velho que faz as pessoas serem infelizes durante a grande maioria da sua vida.

Admito a possibilidade de existirem almas gémeas e acho, verdadeiramente, que todos nós nos damos de caras com a nossa, mais cedo ou mais tarde. Mas também acho que termos uma alma gémea não significa necessariamente que vamos ficar com ela para o resto da nossa vida. Uma alma gémea pode estar na nossa vida durante uma semana, um mês, um ano – e durante esse tempo muda-nos, transforma-nos. Depois fica ou vai embora, mas nunca mais somos os mesmos depois de conhecermos essa pessoa.

Isso não invalida qualquer outra relação que eu tenha tido antes ou que vá ter depois. Posso estar com alguém durante dez anos e, depois dessa relação acabar, eu continuar a ser feliz e a não me arrepender de ter estado nessa relação. Não preciso de encontrar desesperadamente uma alma gémea. Preciso de alguém que me faça sentir bem e desejada. Alguém que me mostre novos horizontes, que me ponha a pensar em coisas que nunca tinha pensado antes. Que me ame, principalmente. Não preciso de uma alma gémea, de um ser perfeito e imaculado que nunca me põe à prova, que nunca duvida de mim nem me coloca dúvidas. Preciso de um humano que erre. Príncipes encantados pertencem aos contos de fadas – e eu não gosto desses. 

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