Cabelo rima com pesadelo

Cabelo rima com pesadelo

Dia sim, dia não, tenho alguém a dizer-me o quanto adora o meu cabelo. É um cabelo giro, aparentemente. Naturalmente encaracolado, castanho, comprido. As pessoas acham-no maravilhoso e ficam absolutamente fascinadas. Meu Deus, Marta, como é que consegues manter o cabelo assim? Qual é o teu segredo? É tão fofinho!

O que as pessoas, regra geral, não compreendem é que ter este cabelo é mais ou menos o equivalente a ter uma vida de constante exasperação. E podem achar que estou a ser demasiado dramática, mas não estou. Mesmo.

1. This bitch had the nerve, the audicity, to touch my motherfucking hair. Do NOT touch my hair.*

(*: Para os interessados, toca toda a gente a ir ouvir a música "Don't Touch My Hair, Hoe" da Brooke Candy)

O número de pessoas que se acha no direito de ser muito engraçadinha e de tocar no meu cabelo é assim, possivelmente, semelhante aos números da conta bancária do Bill Gates. E não me interpretem mal: adoro que me mexam no cabelo, principalmente se for para fazer aquelas massagens que me põe a dormir a fim de dois segundos e meio. Mas costuma ser chato ter gente a toda a hora a pedir "posso mexer no teu cabelo"? Não sei, será que podes?

2. As cabeleireiras são surdas ou não falam português.

Quando vou à cabeleireira e peço que me cortem APENAS e somente as pontas do cabelo, não peço isso porque sou extremamente esquisita e gosto de estar a dificultar o trabalho do pessoal. Peço isso porque o meu cabelo, encaracolado, encolhe naturalmente quando seca. E, por isso, chega-me ao rabo quando acabo de tomar banho, mas depois fica-me pelos ombros quando está seco e penteado. Ou seja - se me cortarem mais do que as pontas, vão-me cortar metade do cabelo. Passo de cabelo pelos ombros a cabelo rapado. E não imaginam a dificuldade que é encontrar uma cabeleireira que perceba este conceito tão complicado.

3. Banhos rápidos? You wish.

Sabem aqueles duches rápidos que tomamos de manhã antes de ir para a escola ou para o trabalho, só mesmo para irmos bem cheirosas e para o nosso cabelo não ir a cheirar ao suor da noite? Pois, as pessoas com cabelos fabulosos, como o meu, não sabem o que isso é. Banhos são sempre superiores a meia-hora, porque tenho de usar champô, condicionador e máscara - e só para desembaraçar o cabelo e tirar aqueles nós que magicamente surgem de um dia para o outro... nem vos conto. Já agora, não dá para desembaraçar o cabelo sem parecer que acabámos de rapar o cabelo a alguém. Vai haver cabelo por todo o lado. Na banheira, nas paredes da banheira, na escova, no chão, na toalha, e alguns vão teletransportar-se também para as vossas partes íntimas. É a vida. Ah, e já me esquecia - também dói para caraças estar ali vinte minutos com a escova na mão. Chegam ao fim e não sentem o braço. Nem o vosso couro cabeludo. 

4. Cabelo sempre giro é mito.

Noventa por cento do meu dia é passado com o cabelo apanhado num rabo de cavalo para depois ele estar giro naquelas duas horas que me vou encontrar com o meu adorado ou que vou sair com as minhas amigas. Há um ritual rigoroso para manter o meu cabelo bonito: tenho de o apanhar antes de ir para a cama, depois de tomar banho, e dormir assim, com ele apanhado, e depois no dia seguinte tenho de o manter apanhado até à altura em que o quero bonito. Porque se, por acaso, o soltar uma ou duas horas antes... pois, vai dar merda. Ele vai secar, vai encolher e vai parecer saído de um filme de terror. Se não o apanhar durante a noite, ainda pior. Sabem aquela teoria de que só devemos lavar o cabelo uma vez a cada dois dias? Eu faço isso porque não quero ficar careca - mas no meu segundo dia pareço sempre que não lavo o cabelo há três semanas.

5. Newsflash: as pessoas são parvas.

Sabem o que é ter cinco anos, cabelo encaracolado e haver gente a chegar ao pé de vocês e da vossa mãe e dizer "ai, que gira, ela fez uma permanente"? Não, não sabem. As pessoas são o ser mais parvo que já conheci na minha vida.

6. Nasce selvagem, vive selvagem.

A verdade é que posso fazer todo um ritual, posso desembaraçar o cabelo durante três horas seguidas e, no dia seguinte, se ele não quiser, não vai estar bonito. Os cabelos encaracolados têm vida própria e ninguém, para além dos pobres coitados que convivem com ele todos os dias, conseguem compreender isso. Nem as senhoras que fazem permanentes. Ou que acham que os outros fizeram permanentes. 

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