A Múmia (não) ressuscitou (*SPOILERS*)


É conhecimento comum dos leitores deste blogue que sou muito apaixonada por duas coisas na vida: cinema e Tom Cruise. E, por isso, na Terça-feira fui ver The Mummy, o mais recente filme de Hollywood com o Tom Cruise. Custa-me dizer o que vou dizer a seguir, mas, infelizmente, tenho de o fazer: nunca me arrependi tanto de ver um filme do Tom Cruise.
[ Addendum: Não gosto de dizer que sou esquisita no que toca a filmes, porque me consigo entreter com coisas como The Hangover ou qualquer filme da Marvel, mas, a verdade é que sou incrivelmente esquisita no que toca a Hollywood e os seus bebés. Dito isto, preparem-se para um texto extremamente picuinhas. Escusado será dizer, o seguinte texto vai conter muitos spoilers. E spoilers pesados. Sobre o fim do filme, por exemplo. Leiam com cuidado. ]

The Mummy é um filme de acção, realizado por Alex Kurtzman, o que, por si só, me deveria ter deixado de pé atrás. Antes deste filme, só tinha realizado People Like Us, um drama que só é assistível porque tem Chris Pine e Elizabeth Banks nos papéis principais (e nem eles salvam aquilo da desgraça). Tirando isso, Kurtzman trabalhou apenas como produtor e guionista para uma quantidade de filmes que eu amei, como é o caso de Mission Impossible III, The Island, The Proposal ou Now You See Me. Disclaimer: eu ter gostado destes filmes não atesta a sua qualidade. Factualmente, grande parte destes filmes não é nenhuma obra de arte.

Apesar disto, entrei no filme convencida de que ia ver o filme da minha vida. O trailer tinha-me deixado entusiasmada, mesto tendo acontecido flops como aquele em que a IMAX lançou um trailer do filme... com clips de áudio em falta.


Não, a sério, vejam isto. É hilariante e digno de ser conhecido por todos.

Odeio filmes com ritmo lento. É por isso que, apesar de amar a Scarlett Johansson e de saber que o filme é considerado quase de culto e um dos melhores filmes dos anos 2000, odeio o Lost in Translation. Devo ter um ligeiro défice de atenção, não sei, e simplesmente não consigo ficar agarrada ao ecrã durante muito tempo se a história não me envolver -  e depressa. The Mummy é um filme de 107 minutos e consegue meter a acção que nos interessa - luta entre a personagem de Tom Cruise, Nick Morton, e a princesa Ahmanet, a múmia - apenas aos 50 minutos de filme. Relembre-se que este é um filme de acção e, por isso, estou à espera de ver acção. A única coisa minimamente semelhante a isso que temos antes da marca dos 50 minutos é uma cena de armas no Iraque logo no início do filme e o sargento Chris Vail a tentar matar toda a gente num avião trinta minutos depois.

Mas tudo bem, já perdoei muitos ritmos lentos depois de ver uma história que valia a pena. Não gosto de estar meia hora sem ver nada a acontecer, mas se a história valer a pena, eu aceito. Isso não acontece no The Mummy; aliás, acontece o oposto. Não só o ritmo é mais lento que uma tartaruga como a história não faz absolutamente sentido nenhum. 

Nick Morton (Tom Cruise), um soldado da fortuna, e o seu melhor amigo Chris Vail (Jack Johnson) encontram, no Iraque, o túmulo da princessa egípcia Ahmanet (Sofia Boutella). Jennifer Halsey (Annabelle Wallis), uma arqueologista que algures no tempo dormiu com Nick, também aparece no Iraque e percebe que o túmulo não é um túmulo mas sim uma prisão. *SPOILERS* Depois descobrimos que afinal Jennifer trabalha para uma organização que caça monstros, chamada Prodigium, e cujo o chefe é nada mais nada menos que o doutor Henry Jekyll, que tem uma segunda personalidade, o Edward Hyde. Ahmanet foi em tempos uma herdeira ao trono do Egipto, mas depois do nascimento do seu irmão, ela assassinou o seu pai e o seu irmão para tentar ressuscitar Set, o deus da morte. Quando foi descoberta, foi mumificada viva e coberta em mercúrio para que o seu lado demoníaco não conseguisse escapar. Obviamente, Nick e Jennifer permitem que ela escape do túmulo. *FIM DOS SPOILERS*

Existe mais uma dezena de coisas parvas na história do filme, mas se me metesse a escrever tudo não saía daqui hoje. No entanto, há uma especificamente da qual tenho de falar em detalhe, porque me deixou aziada na Terça-feira, e ontem também, e hoje continuo aziada e hei-de continuar aziada até ao fim dos meus dias: o fim do filme. 

*SPOILERS*
Ahmanet volta à vida, milhares de anos depois, e continua a querer ressuscitar Set. E que melhor ideia de fazer isso do que permitir que Set possua o corpo de Nick? No fim do filme, Jenny morre e, num acto de coragem, Nick deixa que Set possua o seu corpo para poder ganhar os poderes dele e conseguir trazer Jenny de volta. Claro que isto é não só um acto de coragem mas tem um acto de redenção, em que Nick tem de provar que é um homem bom, porque só assim conseguiria resistir ao espírito de Set e voltar a ter controlo do seu próprio corpo... para poder salvar Jenny. *FIM DOS SPOILERS*

Isto é confuso? É. É aí que reside o meu problema. É confuso e não tem qualquer lógica. Enquanto fazia uma pesquisa aprofundada na internet sobre coisas positivas das quais pudesse falar (não encontrei...) acabei por descobrir que o Set a possuir o corpo de Nick não fazia parte do guião original. Foi uma plotline adicionada porque, originalmente, Nick e Ahmanet tinham o mesmo tempo de ecrã... e Tom Cruise não gostou disso, por isso obrigou os guionistas e o director a criarem uma história extra que lhe desse mais tempo de antena. Plotlines enfiadas à pressa dentro de outras plotlines já é razão para um filme não prestar. As histórias têm de coabitar de forma coesa, caso contrário, parece tudo um grande imbróglio e não se percebe nada de nada. Mas, para ajudar à festa, deram uma plotline de redenção a uma personagem que, na verdade, não precisava de se redimir.

É suposto acharmos que Nick é uma má pessoa; é suposto acharmos que tem um bom coração mas que toma más atitudes porque é imprudente, egoísta e só se preocupa com dinheiro e consigo mesmo. O problema é que nunca chegamos a odiar Nick, provavelmente porque Tom Cruise lhe tenta dar um ar ligeiro, de rapaz de vinte anos que faz más escolhas apenas porque não sabe que outras escolhas fazer - assim, chegamos à redenção e não precemos sequer o porquê daquela pessoa ter de se redimir. Para quem não está a perceber, isto era o equivalente a dar uma plotline de redenção ao Goose do Top Gun

[ Addendum: a certa altura, Jenny diz a Nick que sabe que ele tem um bom coração, conversa cliché de pessoa boa para uma pessoa boa que anda por maus caminhos. Eu fiquei a olhar para o ecrã e a única coisa que pensava era "mas alguém alguma vez achou que ele tinha um mau coração?" ]

Querem saber que mais é estúpido? A Múmia falar inglês. Nem estou a falar da história se passar em 2017, em Inglaterra, apesar de, sim, isso ser estúpido; estou mesmo a falar do facto da princessa Ahmanet falar inglês. "A vossa língua é mais fácil do que a língua egípcia", diz ela. Eu aceito isso, mas não aceito que saibas falar inglês fluente duas horas depois de estares acordada. Tem mais lógica o Nick saber falar egípcio, uma vez que ela está a controlar-lhe o cérebro, do que o contrário. 

A juntar a tudo isto, a soundtrack não é memorável, a cinematografia também não e os efeitos especiais são um bocado demais. Há uma grande tentativa de colocar umas piadas pelo meio de cenas mais sérias para aliviar a tensão, mas a) as piadas não têm graça e b) não há nenhuma tensão para aliviar. É tudo genericamente muito mau. E eu, que não perco um filme com o Tom Cruise e que não aponto nunca problemas em nenhum filme que o tenha no papel principal, só consigo apontar coisas más neste.

Antes de terminar, é de acrescentar que este filme servia de reboot ao filme The Mummy, de 1999, e de início para o universo de filmes Dark Universe, que vai apresentar os monstros mais conhecidos de todo o sempre com um toque moderno. Estão previstos filmes sobre o Frankenstein, Invisible Man, Phantom of the Opera, entre outros. E o erro do The Mummy está mesmo no facto de se preocupar demasiado em tentar estabelecer um unvierso que será continuado por outros filmes do que em estabelecer um bom autónomo. Desculpa, Tom Cruise, mas nem a tua carinha laroca salvou este filme.

1 comentário:

  1. Eu gostei muito desse filme com Sofía Boutella! Ela é uma grande atriz. É uma das minhas atrizes preferidas, acho que ela é completamente talentosa. Lembro dos seus papeis iniciais, em comparação com os seus filmes atuais, e vejo muita evolução, mostra personagens com maior seguridade e que enchem de emoções ao expectador. Também vi que ela vai atuar no filme Fahrenheit 451: https://br.hbomax.tv/movie/TTL711416/Fahrenheit-451. Espero que seja umas das melhores adaptações para ver, a historia é interessante e parece levar um bom ritmo. Já estou esperando o filme, seguro será um sucesso com essa atriz bonita.

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