Preguiçosa, mas só às vezes


Quem me conhece sabe que sou das pessoas mais preguiçosas de todo o sempre. Não troco umas boas horas sentada em frente ao computador ou deitada na cama por quase nada neste mundo – são poucas as coisas que merecem tanto esforço da minha parte. E, por isso, quando digo a alguém que daqui por uns anos gostava de andar pela natureza a fotografar, geralmente o que recebo em retorno são olhares de estranheza.

Hoje a minha mãe falou-me em dois rapazes que tinham ido no outro dia a um programa de televisão depois de terem completado a maratona do Polo Norte. Maratona do Polo Norte? Nunca na vida tinha ouvido falar de tal coisa, mas a minha primeira reacção foi ir à internet procurar mais sobre isto. Aparentemente, esta maratona realiza-se desde 2002 e tem acontecido todos os anos desde então. Várias pessoas, de várias nacionalidades, juntam-se para correr 42 quilómetros a uma temperatura de trinta graus negativos. É de loucos? Completamente. Eu gostava de participar uma vez na vida? Obviamente.

A verdade é que sou uma pessoa inerentemente preguiçosa, mas a vontade que tenho de ir para a rua viver aventuras que dêem significado aos frágeis anos que vou andar pela Terra aumenta cada vez mais. Não é por acaso que, apesar de adorar tudo o que tenha a ver com a área do Audiovisual, me quero especializar em fotografia de natureza. Não é por acaso que, quando me perguntam o quero estar a fazer daqui a uns anos, me imagino algures no meio dos Himalaias, sei lá, ou se calhar em Mýrdalsjökull, à espera de que o Katla entre em erupção. Tenho toda uma lista, até, de sítios que quero visitar antes de morrer (lista essa que está em constante actualização, porque é raro o dia em que não encontro um novo local para visitar), sítios que são provavelmente estranhos para quem me conhece – ou para quem acha que me conhece.

Não sou mais aventureira porque não tenho dinheiro, na maioria das vezes, e não sou mais aventureira porque ainda vivo com os meus pais e não posso simplesmente desaparecer durante duas semanas sem dar justificações a ninguém. Não sou mais aventureira porque não tenho mais ninguém que vá comigo, pelo menos por enquanto. Não sou mais aventureira porque não posso ser, mas quero tanto ser mais. Visitar mais sítios. Viajar. Ver o mundo através do pico de uma montanha na Ásia ou no meio de uma floresta húmida na América do Sul. Viajar mais. Sou uma apaixonada por animais: quero vê-los nos seus habitats naturais, viajar, ver animais que nunca poderia ver aqui, ver um Emu e um Casuar-do-Sul, ver animais que a maior parte das pessoas se contenta a ver no Jardim Zoológico. Eu recuso-me a ir ao Jardim Zoológico, agora; fui lá uma vez, quando era pequena, e não me lembro muito bem da visita mas parece-me, pelas fotografias, que gostei muito daquilo. Agora não gostaria, porque aqueles animais não pertencem ali e muitos deles não pertencem sequer aqui, a Portugal; e até me contento com a ideia de que posso nunca ver muitos dos animais que existem no mundo porque estão em zonas inacessíveis ou em locais aos quais nunca vou conseguir ir. Prefiro que eles fiquem lá, no sítio de onde são, e não sou egoísta ao ponto de achar que, sim, tem de haver um jardim zoológico para eu poder ir ver todas as espécies exóticas que me apetecer ver. A grande maioria dos seres humanos não tem sequer capacidade suficiente para observar, mas observar mesmo, nem absorver a beleza que muitos desses animais possuem; para eles, não são nada mais do que meia dúzia de criaturas com aspecto estranho que fazem rir os miúdos, ou, como eu gosto de os chamar, os descendentes do Diabo.

Para não tornar isto em mais um texto mais agressivo que passivo, quero retornar ao assunto sobre o qual hoje escrevo: sou uma pessoa preguiçosa, mas o meu coração enche-se cada vez mais de adrenalina. Na outra semana, visitei o Cabo Carvoeiro com a minha mãe e andei a saltitar de pedra em pedra, a aproximar-me (provavelmente mais do que seria aconselhável) da pontinha para olhar bem para o mar enquanto a minha mãe me seguia, um bocado a medo, só até certos sítios – uns cheiravam mal e, por isso, ela dava meia volta e ia embora e outros eram apertados e claustrofóbicos e o vento começava a bater com demasiada força. E eu continuava a andar, e a tirar fotografias, e a fotografar só com os olhos, também, porque é tão fácil para mim perder-me no momento e esquecer-me de que momentos e paisagens tão lindas merecem ser recordadas através dos olhos de uma objectiva. E eu esqueço-me, e torno-me egoísta, porque não me permito fotografar e fico com aqueles pedaços de paraíso só para mim.


Um dia vou dar largas a esta sede de aventura que tenho dentro de mim; vou viajar para onde poucos viajam, para sítios que provavelmente vão diminuir a minha esperança média de vida em cerca de vinte anos, e fotografar ou, sabe-se lá, ser egoísta de novo e deixar que os meus olhos sejam os únicos a ver aquelas montanhas e aqueles animais. Se alguém achar estranho que eu queira viajar para locais onde posso, muito possivelmente, vir a morrer, só posso responder que todos nós queremos morrer felizes. E é no meio da natureza que me sinto feliz.

2 comentários:

  1. Oh Marta, este post está tão diferente daquilo que se costuma ver, tão puro e amoroso, juro!
    E acho que não te deves autocensurar, estar sempre a pensar: "Hm, será que sou agressiva? Será que me estou a desviar do assunto?" - o blogue é teu e escreves sobre aquilo que bem te apetecer!
    Acredita que foi maravilhoso ler cada palavra e pensar nos locais que enumeraste! Devo admitir que nunca gostei do Jardim Zoológico, porque ver animais presos, dentro de jaulas, fora do seu habitat natural, causava-me e causa-me confusão. Na altura, só me apercebia das jaulas, agora que cresci, tudo o resto me causa repulsa.

    Beijinhos e continua a partilhar os teus pensamentos e sonhos! :)

    ResponderEliminar