Os tipos de masoquismo


Alguém me disse uma vez que, quando uma coisa nos faz mais mal do que bem, temos de a deixar a partir (não me perguntem quem é que me disse, não me lembro. É possível que tenha sido a minha mãe, mas sei lá). Essa coisa, geralmente, é uma pessoa, porque ninguém fala em largar roupas apertadas ou medicamentos. Adiante. Este tipo de comentários deixa-me a pensar nos pobres dos masoquistas que gostam é de sofrer e têm de levar com a sociedade a dizer este tipo de coisa.
Quem somos nós para dar conselhos? Dar, ainda por cima; conselhos verdadeiramente bons eram vendidos, não dados. E, quando as pessoas se sentem na posição de dizer a alguém aquilo que deviam, ou não deviam, fazer com a sua vida, estão, muitas vezes, nessa posição porque não têm a mínima ideia daquilo que vai na cabeça do outro.

Antes de mais, nem sempre aquilo que faz mal a uma pessoa faz mal a todas as outras pessoas. Pensemos nisto como uma alergia: os meus pais ficam sempre muito mal da Primavera por causa do pólen das flores. Vão agora dizer-me "Marta, afasta-te do pólen que isso faz-te mal"? Podem dizer, mas vou mandar-vos bugiar porque os meus pais é que têm alergia, não eu. Depois, tal masoquista, há sempre quem goste de sofrer. Por acaso, a minha mãe não gosta de andar de olhos vermelhos e aos espirros - mas, e se gostasse? O que é que o resto do mundo tinha a ver com isso?

Não me denomino masoquista porque isso implica todo um rol de coisas com as quais não me identifico. Assim sendo, prefiro antes desdobrar o masoquismo em várias vertentes e depois identificar-me apenas com algumas delas. Para quem não sabe do que estou a falar, passo então a apresentar-vos os cinco tipos diferentes de masoquismo que costumo encontrar por aí.


1. Masoquismo físico

Não é preciso sequer descrever isto, mas tem coisas parecidas com o Fifty Shades of Grey, só que com mais sensualidade e sem o Jamie Dornan. A não ser que o Jamie Dornan seja masoquista. 

2. Masoquismo cultural

Ver cinema indie só porque isso vos torna muito "à frente" e muitíssimo intelectuais. Só que não mesmo, não é?

3. Masoquismo emocional

O típico "quanto mais me bates, mais eu gosto de ti". É quando bate aquela vontade grande de falar com alguém, de ver o sorriso de alguém, de dizer a alguém "olha, és um idiota, mas és o meu idiota favorito" mesmo quando essa pessoa nos ignora dia sim, dia não.


4. Masoquismo tecnológico

Quem compra iPhone em vez de Android, quem compra Apple Watchs, quem gasta dinheiro numa Canon 1300D ou quem prefere a PS4 à XBOX sabe perfeitamente do que é que estamos a falar aqui.

5. Masoquismo clubístico

Difere profundamente de país para país; em Portugal, é sinónimo de "ser do Sporting" ou "achar o Messi melhor que o Ronaldo". Graças a Deus, não sofro da primeira patologia. Já da segunda...


Não me julguem por ser assim. A sério que, se eu pudesse mudar, mudava - mas uma grande parte das vezes, o meu cérebro faz-me acreditar que estou bem assim. Juro que não é de propósito que ofereço o corpo ao manifesto para sofrer com pessoas que, claramente, não estão muito interessadas em mudar as suas atitudes.

Mas, que raio, essas pessoas são as melhores para mim. Já vos disse antes que gosto de gente má, mas não fico por aí. Gosto de gente má que me trata mal. E vejam se me faço entender: não há nada que me deixe mais de coração quente do que alguém que seja fofo para mim. O problema é que, dos sete dias da semana, passo seis e meio não há procura de quem me deixa o coração quente mas sim de quem me dá um friozinho na barriga. De quem me faz dizer "porra, que idiota" com um sorriso na cara. De quem me faz chorar, quando chego a casa, porque não me falou e me faz chorar quando me fala, também.

Existe alguma explicação lógica para este facto? Provavelmente, não. Se calhar, eu estou é a precisar de ir a um médico ou coisa semelhante. Se calhar, isto cura-se e eu é que não sei.

O que sei é que sou uma pessoa tão apática no dia-a-dia que preciso de forças exteriores que me façam sentir viva. Enquanto não posso dar-me ao luxo de fugir para o meio da floresta amazónica para fotografar um Uirapuru, tenho de me contentar em esperar que as pessoas me tratem mal - só para me sentir viva, para sentir qualquer coisa.

2 comentários:

  1. Masoquismo emocional é a "minha cena".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Infelizmente, acho que muita gente sofre desse tipo de masoquismo hoje em dia. Eu incluída ;)

      Eliminar