Malmequer, malmequeres

Fez ontem exactamente uma semana que ganhei o prémio “O mais opinador” na gala Prémios Caneta Dourada (uma gala realizada pela ESCS MAGAZINE, a revista da Escola Superior de Comunicação Social). Tive de subir a um palco e fazer um discurso durante um minuto e responder a questões à saída do auditório. As pessoas aplaudiram, riram e fizeram caras de estranheza e, no fim, quem não esteve presente fez-se notar mais do que quem esteve.

Há algum tempo descobri que me tinham nomeado para a categoria “O mais opinador”. E posso ser hipócrita e escrever um texto sentimental e tocante que revela que não estava à espera da nomeação nem de ganhar – mas isso não faz o meu estilo. Então: tinha (nunca a 100%, claro) bastantes certezas de que ia ganhar. O prémio era entregue à pessoa com mais vontade de opinar, não necessariamente às melhores opiniões (o que pode, ou não, ser injusto, mas isso são pontos de vista que não sinto necessidade de analisar neste momento). Mas vocês, leitores, sabem bem que filtros são coisa que não me assiste e que opiniões são aquilo que mais tenho, sempre.

Quando cheguei ao palco para receber o prémio, discursei sobre coisas que não têm directamente a ver comigo, mas que ainda assim são proporcionalmente importantes para a minha vida. Não tinha discurso escrito nem preparado, mas tinha de falar sobre alguma coisa, então falei. Disse que não ia agradecer a ninguém, porque as opinioes são minhas, logo o mérito do prémio é todo meu. Disse que só ia fazer uma dedicatória, nada de agradecimentos, dedicatória essa que só abrangia uma pessoa que não estava presente. Alguém que esteve presente na minha vida nos últimos mesos e que não foi a razão pela qual ganhei o prémio (já era “opinadora” bem antes desta pessoa entrar na minha vida), mas que contribuiu para o facto de eu, mesmo já não escrevendo artigos de opinião para a MAGAZINE, continuar a ser uma “opinadora” nata. Foi essa pessoa que me relembrou, depois de eu deixar de escrever artigos de opinião, que a opinião era o meu ponto forte e que nunca devia deixar de opinar. E não deixei. Mas, mais do que isso, essa pessoa mostrou-me todo um novo mundo de possibilidades.

No meu discurso pouco lógico, falei durante alguns segundos sobre o facto de gostar de que as pessoas não gostem de mim – tema que já mencionei algumas vezes neste blogue e que é recorrente nas conversas do dia-a-dia. E durante vários anos tive a vaga impressão de que era esse o meu desejo mais profundo – ser odiada -, mas sempre me rodeei de pessoas que, por uma razão ou por outra, me encorajavam a dar-me bem com o resto do mundo. Acontece que iniciei o meu processo de misantropia algures na escola secundária, mas esse processo nunca viu um térmito – foi preciso chegar à faculdade para perceber que não, eu não quero odiar pessoas; eu também quero que elas me odeiem de volta.
Foi um processo relativamente longo que passou por altos e baixos, confusões e momentos de clareza, mas que foi bastante impulsionado nos últimos meses pelo Mau-Feitio (que, por esta altura, vocês já conhecem quase melhor que eu) – a tal pessoa, a única, a quem dediquei o meu prémio fatela.

Foram necessárias várias horas de conversa com esse rapaz que já tem idade para ter mais juízo que eu (mas que, claramente, deixou esse juízo na barriga da mãe quando nasceu) e com as minhas colegas de faculdade, que também possuem pouco ou nenhum juízo, para perceber porque é que, afinal, não queria que as pessoas gostassem de mim: porque, ao gostarem, têm expectativas.

Deixem-me explicar: pessoa A gosta de mim. Pessoa A espera que eu faça isto ou aquilo numa determinada situação; se eu faço diferente, pessoa A fica chocadíssima, fica chateada, manda-me mensagens a pedir justificações. E eu lá tenho de me chatear, também, e entrar numa briga com uma pessoa que até gostava de mim.

Quando as pessoas não gostam de mim, já estão naturalmente à espera de que eu faça porcaria. A maior parte das vezes, já nem se dão ao trabalho de me enviar mensagens a mandar-me à merda – nem me falam, sequer. O que eu agradeço, a sério, porque gosto pouco de gastar o meu latim. Mas o espírito é este; quem não gosta de mim, está já à espera de que eu faça porcaria. E eu faço muita porcaria, por isso ninguém sai espantado. Não gosto de ter de explicar as minhas acções, porque faço o que quero quando quero e onde quero, e isso implica muitas vezes incomodar pessoas com palavras incómodas em sítios incómodos e em alturas incómodas.

Portanto: não gostem de mim. Ganho anos de vida (e paro de perder tempo a dar explicações, tempo esse que posso utilizar para escrever artigos para este blogue). Nunca ninguém percebe todo este raciocínio com a excepção, claro, do Mau-Feitio, e agora estou aqui, a esforçar-me, para vos tentar explicar aquela que é a minha essência. Por esta altura, devem achar que sou tresloucada. O problema é que, provavelmente, têm razão. Mas isso faz tudo parte do discurso que estou a tentar passar – o mesmo que tentei passar na gala, mas lá tinha apenas um minuto para falar e aqui tenho uma vida inteira –; se me acharem louca, podem ter uma maior tendência a não gostar de mim.

Há excepções, claro. Há quem goste de gente louca, há quem goste de gente má – eu gosto de ambos, especialmente se estiverem misturados na mesma pessoa, o que resultou, como já sabem, no meu fascínio pelo Mau-Feitio e a sua loucura-maldade assumida.

Para resumir este texto que passou a ter tanto sentido quanto o meu discurso: ganhei o prémio “O mais opinador” porque opino muito. E as minhas opiniões são, geralmente, muito problemáticas porque não tenho filtros e porque quero é que as pessoas não gostem de mim. Ganhei o prémio porque sou má pessoa – porque se fosse boa pessoa, não tinha as opiniões que tenho e provavelmente não teria opiniões de todo e, por consequência, não opinava.

Sei lá. Este texto nem sequer é de opinião. Nem pareço particularmente má pessoa hoje. 90% disto até é mais diarreia verbal que outra coisa. Eu e o Mau-Feitio gostamos que não gostem de nós. 

2 comentários:

  1. Ai, adorei tanto este post quanto adorei o teu discurso! Amo a forma como expressas, lá está, as tuas opiniões e acompanhas as tuas palavras de gestos que, ao princípio, parecem não fazer muito sentido, mas que depois entram em sintonia com tudo!
    Dá-lhe, miúda, continua a opinar! :D

    Estranha Forma de Ser Jornalista
    http://estranhaformadeserjornalista.blogspot.pt/

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    1. Grande parte das vezes as minhas coisas não fazem sentido. O meu cérebro é um local demasiado complexo que, muitas vezes, nem eu entendo. Mas é bom saber que há quem goste de ler os meus devaneios! Vou continuar a opinar, sim, senhora! ;)

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