Canonização do CR7


Agora que se estão a aproximar as celebrações do centenário das aparições de Fátima, acho que esta é a altura indicada para assumir que no outro dia fui ao Santuário de Fátima com a minha mãe. E sim, continuo a ser uma pessoa altamente não religiosa; mas não gosto de que a minha mãe viaje sozinha e por isso faço o esforço extra para a acompanhar onde quer que ela vá, mesmo que sejam locais como este.

Voltando ao assunto principal: fomos ao Santuário de Fátima. Já lá tinha ido antes, mas desta vez fui com um olhar mais crítico do que aquilo que é normal em mim – apesar da minha aversão a tudo o que é a fé de massas, tento manter-me calada durante a maior quantidade de tempo possível para evitar faltar ao respeito aos crentes que tanto esforço fazem na sua peregrinação a estes lugares. E, ao ir com um olhar mais dilacerante, não foi difícil encontrar um número infinito de coisas sobre as quais mais pessoas deviam incidir o seu pensamento. Aqui, neste post, vou falar apenas em algumas porque a vossa vontade de ler sobre o Santuário de Fátima deve ser igual à minha vontade de lá ir.

1. “Posso ajudá-lo?”


Toda a gente conhece as lojinhas de souvenirs que existem em Fátima. São mais que os peregrinos, isso é de certeza; são ruas inteiras cobertas de pequenos espaços em que se vendem sempre exactamente os mesmos terços, as mesmas pulseiras e as mesmas figuras. Nada muda nestas lojas, nem mesmo a disposição dos produtos – só mudam mesmo as pessoas que estão dentro das lojas. E mesmo essas são nada mais nada menos do que autênticas fotocópias do típico comerciante de uma loja do chinês. Não há loja que falhe – nós entramos e a primeira coisa que vemos é uma criatura a aproximar-se de nós e a dizer “bom dia, posso ajudá-la?”. Não, não pode. Porque a probabilidade de eu não ter ainda visto o que está aqui em qualquer uma das outras lojas pelas quais já passei é muito baixa – e se não comprei nas outras, não vou comprar aqui. Não, não pode ajudar. E não, também não pode ficar a olhar para mim com cara de peixe morto quando eu saio da loja sem comprar nada.

2. O Cristiano Ronaldo é anjo?

A segunda coisa, para além dos lojistas, que me irrita profundamente nas lojas de Fátima são os produtos lá vendidos. Não, não me estou a referir às cinquenta variações diferentes da figura de Jesus Cristo que lá encontro nem aos terços com cheiro a rosas e as garrafinhas com “água de Fátima” ou “terra de Fátima” (caso não estejam a perceber, estão piores que aquele magano a vender água da superonda da Ericeira), apesar de admitir que consigo perceber porque é que alguém se poderia irritar com isso. O que me irrita verdadeiramente nestes lugares são os produtos que nada têm a ver com Fátima. E se acham que em Fátima só se vendem coisas santas, pensem novamente. Nas últimas vezes que lá fui, encontrei poucas lojas que não vendiam coisas tão banais e pouco apropriadas como isqueiros (que não tinham a imagem de Nossa Senhora, surpreendentemente), camisolas do Cristiano Ronaldo e da Selecção Nacional (o CR7 foi canonizado e não dei por isso?), pantufas, brinquedos de praia e ovelhas. Não, a sério. Ovelhas de peluche com lenços da selecção nacional ao pescoço. Altamente relacionado com Fátima, não? Então e aquelas camisolas do Cristiano Ronaldo? Tudo a ver, não é? Tudo bem, percebo que querem arrancar dinheiro aos imigrantes e que a grande maioria deles vai comprar isso como se a sua sobrevivência dependesse disso mesmo, mas podiam disfarçar mais a vossa vontade de sacar dinheiro ao pessoal.

3. Custa quanto?

Pouco tempo antes de me vir embora, entrei na última loja que encontrámos a caminho do estacionamento. Era das maiores lojas que tínhamos visto, também, e tinha figuras que eu não tinha ainda encontrado em mais lado nenhum. Também não vendia camisolas do Cristiano nem ovelhas. Fiquei 5% feliz porque pensei “wow, finalmente um loja que se rege pela lógica mínima”. E, apesar de não estar a pensar comprar qualquer uma das figuras, fui na mesma cuscar o preço de algumas das coisas que estavam nas prateleiras. Qual não foi o meu espanto quando peguei numa pequena figura que não media mais que dois centímetros e meio, talvez três, da Nossa Senhora que custava… 39,90€. Não, eu não vi mal. Custava mesmo 39,90€. Vi as figuras do lado. Do mesmo tamanho. Custavam o mesmo preço. Uh? Quarenta euros por uma figura de três centímetros? Não, mas a sério – quarenta euros? Vocês sabem a quantidade merdas que eu comprava por quarenta euros que seriam bem mais úteis do que uma figura de três centímetros da Nossa Senhora de Fátima? Alguém olha verdadeiramente para aquela imagem e pensa “ena, vale mesmo a pena dar quarenta euros por isto que vai possivelmente ficar esquecido na bagageira do carro porque é tão, mas tão pequeno que nem o consigo encontrar”?

O Santuário de Fátima está maioritariamente direccionado a arrancar dinheiro aos milhares de turistas que visitam o local todos os anos. E, repito, não sou religiosa – mas até eu consigo perceber que aquele deveria ser antes um local de fé e de contemplação, não um local onde aquilo que se pede é demasiado dinheiro àqueles que muitas vezes pouco têm. A vinda do Papa Francisco a Portugal, pelo 13 de Maio, vai ser mais uma oportunidade fantástica para arrecadar dinheiro à custa dos crentes, mas esse é assunto para outro texto. Afinal, a culpa é dos crentes, por serem tão cegos que não percebem que a sua fé não aumenta nem diminui em função do dinheiro que dão à igreja. A culpa não é de quem tão sabiamente se aproveita da vontade que os crentes têm de gastar dinheiro. Se ninguém comprasse as figuras de quarenta euros, elas não estavam à venda…

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