A outsider de jornalismo

Sou estudante de jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, mas o meu coração e mente pertencem, e sempre pertencerão, a Audiovisual. Em Janeiro deste ano, escrevi um texto neste blogue em que mais ou menos explicava este assunto, onde apontava dedos a professores e ao curso. Agora, escrevo um novo texto porque a minha opinião se mutou e porque há muito mais para dizer do que já foi dito.

Até este dia, ainda estou para compreender que bicho me mordeu para ter escolhido Jornalismo em primeira opção quando me candidatei à faculdade. Oiço várias pessoas a dizer “desde pequena que queria ser jornalista”, “sempre amei ouvir rádio” ou “quero contar histórias e mudar o mundo”. Nunca disse porra nenhuma dessas nem sei porque raio alguma vez na vida achei que era isto que eu queria para a minha vida.

A verdade é que sempre fui boa aluna – boa ao ponto de receber quadros de excelência todos os anos e receber uma bolsa de mérito no último ano do secundário. E os bons alunos não recebem acompanhamento no que toca à ida para a faculdade; várias vezes me foi dito por profressores: “Marta, tu és boa a tudo! Podes ir para qualquer lado!”. E o problema reside aí mesmo: no poder ir para qualquer lado. Porque, efectivamente, eu podia ir para qualquer lado. Tinha boas notas a todas as disciplinas. Podiam apanhar-me em Advocacia ou em Medicina. Ciências humanas ou ciências técnicas. Mas do poder ao querer vai um passo de gigante; e quando passas uma vida a ouvir dizer que podes ir para qualquer lado, tu convences-te disso. E acabas por nunca perceber para onde é que queres ir. Então acabas a fazer merda, como eu fiz, e a meter como primeira opção um curso para o qual nunca pensaste ir antes. Só porque podes. Não porque queres.

É difícil ter de explicar às pessoas que não faço a mínima ideia do que me passou pela cabeça quando decidi escolher Jornalismo. A maioria das pessoas escolheu o curso minimante ciente daquilo que queria, mesmo que depois tenha chegado à faculdade e tenha percebido que odiava aquilo. Eu não. Eu entrei numa espécie de transe que afectou todo e qualquer raciocínio que pudesse alguma vez ter criado na minha cabeça e comecei simplesmente a meter seis opções ao calhas na minha lista de candidatura.

Entrei, na primeira fase, na minha primeira escolha: Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. E não me arrependo dos últimos três anos que lá passei; mas a questão é tão mais complexa que isso. Arrependo-me profundamente de não ter pedido ajuda a ninguém na altura certa, alguém que me dissesse “olha, Marta, podes ir para onde quiseres mas se calhar devias pensar naquilo de que gostas mais e ir para aí”. Arrependo-me de ter ido na cantiga do “Marta, gostas tanto de falar, devias ir para Comunicação”. Arrependo-me de não ter desistido na primeira semana do primeiro semestre, quando senti imediatamente que era uma outsider mas ainda assim continuei, porque se calhar era só eu a estranhar o sítio e aquilo melhorava dali para a frente (spoilers: só piorou).

Mas não me arrependo do resto. Não me arrependo de não ter desistido depois, a meio do segundo semestre, quando andava a chorar pelos cantos porque já não podia com aquilo e ainda só estava no primeiro ano. Não me arrependo das horas de sono que perdi para acabar trabalhos que nunca na vida vou utilizar. Não me arrependo das vezes que chorei, desesperada, porque não gostava daquilo mas não sabia do que é que gostava.

Foi no meio das aulas de Ateliê de Captação e Edição Audiovisual, algures no segundo ano da faculdade, que percebi que o meu coração morava ali, nas câmaras e nos programas de edição que tiram anos de vida a todas as outras pessoas. (Agradecerei eternamente aos professores Carlos Nunes e Pedro Lima por me mostrarem todo um outro mundo dentro do curso de Jornalismo.) Dali para a frente foi sempre a descambar; o ódio pelo Jornalismo aumenta, o amor por tudo o resto que se relaciona com Audiovisual aumenta.

Tal como já tinha escrito no outro post que fiz sobre a minha passagem pelo curso de Jornalismo, não odeio Jornalismo ao ponto de não me imaginar a trabalhar nele. Imagino-me, possivelmente, a fazer trabalhos mais direccionados para a cultura e para a natureza, as duas áreas que me são mais próximas; mas, infelizmente, são das áreas mais negligenciadas no que toca ao Jornalismo em Portugal e se há coisa que não me imagino a fazer é a deixar de falar nos animais que estão em perigo de extinção para falar no Banco de Portugal e na União Europeia e na guerra da Síria.

Consegui aguentar três (longos) anos de licenciatura sem comprar um jornal ou sem ver um telejornal, do início ao fim, sem interrupções – algo me diz que isso é um sinal alarmante para alguém que está no curso de Jornalismo. E o tempo vai passando e em Janeiro, quando escrevi o post original, ainda me imaginava, ligeiramente, a sair da ESCS em Junho e a ir trabalhar para uma redacção qualquer, mas agora estamos em Abril e isso parece-me cada vez mais uma utopia. Agora, em Abril, a dois meses de me tornar mais uma licenciada em Jornalismo, percebo que há pessoas tão melhores que eu para este trabalho e que eu não pertenço aqui; pertenço a outros sítios, sítios onde darei o melhor de mim e onde o melhor de mim será suficiente para ser reconhecida pelo meu trabalho. Jornalismo não é um desses sítios. Jornalismo é um sítio onde toda a vida serei infeliz e não é isso que quero ser toda a vida.


Portanto, em Junho, em vez de encontrarem a Marta à porta do Expresso a perguntar “querem uma redactora para o online?”, vão encontrar a Marta à porta da TVI a perguntar “querem uma operadora de câmara?”.

5 comentários:

  1. Wow, devo dizer que estou super surpreendida mas que adorei ler este post!
    Não é que te conheça muito bem, mas parecias-me alguém que gostava realmente de Jornalismo. No entanto, não é em vão que se costuma dizer "as aparências iludem" e fico triste por saber que esta licenciatura não te tem vindo a preencher como devia. Bom, como devia, não é bem isto que queria dizer, mas talvez como devesse na medida em que tomaste esta escolha, compreendes?
    Se nutres uma paixão tão forte pela vertente audiovisual, porque é que não começas a procurar estágios em Audiovisual e Multimédia e tiras esse mestrado na nossa escola? Há uma rapariga que tem um percurso muito semelhante ao teu, bem como a mentalidade, a Ana Cláudia Ameixa, e acabou por tirar o mestrado em AM!
    Muita força e não desistas!

    Estranha Forma de Ser Jornalista
    http://estranhaformadeserjornalista.blogspot.pt/

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    1. Antes de mais, obrigada pelo comentário encorajador! :)
      A ideia do mestrado em AM é algo que me passou pela cabeça nos últimos tempos e, apesar de não o ter escrito neste post, estou efectivamente a pensar fazê-lo depois de acabar a licenciatura. E a procura por estágios também está em desenvolvimento... mas não é fácil. Mas sei que o importante é continuar a tentar!

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    2. Acho que o mestrado em AM seria perfeito para ti! Tal como tu, senti-me super bem nas aulas de ACEA e passei horas a digitalizar cassetes e a editar o meu vídeo quando os meus colegas só queriam sair das redações multimédia, por isso, compreendo-te!
      A questão é que tens certamente muito mais skills que eu, ahah.
      Segue os teus sonhos, não desistas! E olha, naquilo em que te puder auxiliar, já sabes... :)

      Estranha Forma de Ser Jornalista
      http://estranhaformadeserjornalista.blogspot.pt/

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  2. Se sentes que Audiovisual é a tua área então não tenhas medo de investir nessa área depois da licenciatura. Há mestrados, pós-graduações, etc. Eu também tive muitas dúvidas em relação ao curso durante os dois primeiros semestres. Não sabia se gostava realmente de jornalismo ou se achava que gostava porque sempre me tinham dito que ia dar uma boa jornalista. A verdade é que acontece muito dizerem "tens boas notas, podes ir para o que quiseres", mas às vezes é preciso sabermos o que queremos e nem sempre é fácil chegarmos aos 17/18 anos e sabermos o que queremos realmente ser. No entanto, apesar de achar que não vou trabalhar em jornalismo (já estou a especializar-me noutra coisa), sei que o curso me deu competências para poder fazer aquilo de que gosto realmente e espero que, no final, sintas o mesmo e sintas que as competências de jornalismo poderão ser uma mais-valia para trabalhares em audiovisual. :)


    A Sofia World

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    1. Já falei disto com vários professores e todos me disseram que, independentemente de eu gostar ou não do curso, há sempre coisas vou ganhar ao ter tirado Jornalismo. Acredito que seja verdade e sei que existem, neste momento, coisas que não saberia fazer e coisas nas quais nunca conseguiria sequer pensar sem ter estado neste curso (principalmente no que toca à construção de histórias); no entanto, ainda não estou suficientemente longe no tempo desta licenciatura para perceber o que posso mesmo aproveitar.

      Mas tal como já tinha respondido a um comentário acima do teu, o mestrado está no meu horizonte neste momento. Só não vai acontecer se tiver uma proposta de trabalho irrecusável que, por alguma razão, não dê para conciliar com os estudos... mas parece-me improvável! :)

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