Três filmes, uma história


Desde muito pequena que me lembro de ter uma grande paixão por cinema (já sabem, a minha primeira celebrity crush foi pelo Tom Cruise), paixão essa que se manteve até aos dias de hoje. Por essa razão, é-me impossível fazer algum tipo de autocensura e não escrever sobre cinema neste blogue - é uma das minhas verdadeiras paixões e algo sobre o qual eu tenho todo o prazer em falar, mesmo quando ninguém me quer ouvir.

E é a partir daqui que nasce a primeira rubrica deste blogue - "Três filmes, uma história". A ideia será apresentar-vos uma lista de três filmes que vi durante a semana, filmes esses que terão sempre alguma coisa em comum entre deles. A rubrica será publicada semanalmente; e sim, estou a comprometer-me a ver três filmes por semana, só para vocês, leitores queridos.

Sem mais demoras, porque sei que já estão a ferver para saber mais, vamos passar ao que interessa!


TRÊS FILMES, UMA HISTÓRIA

Esta semana trago-vos três filmes ligados por uma história muito simples, que vou passar a contar. Sendo a grande nerd que sou, passo muito do meu tempo a jogar videojogos. Nos últimos tempos, tenho andado particularmente vidrada num jogo: o Payday 2. Ora, este é basicamente um jogo onde um grupo de quatro pessoas faz os mais variados tipos de golpes: assaltos a bancos, a museus, etc. Apesar de ser apenas um grupo de quatro pessoas por golpe, existem à disposição do jogador 17 personagens diferentes que podemos escolher e usar conforme a nossa vontade (podemos trocar de personagem a qualquer momento). Inicialmente, o jogo tinha apenas quatro personagens - mas foi-se expandindo e foi mesmo buscar personagens de outros franchises para usar no jogo.

É aqui que este jogo se cruza com esta rubrica: os três filmes que vi esta semana são todos jogos que acabaram, mais tarde, por "emprestar" personagens ao Payday 2


John Wick (2014)
Personagem emprestada ao Payday 2: John Wick

John Wick conta a história de, bem, John Wick, um ex-assassino de aluguer que procura vingança depois de um grupo de assaltantes lhe roubar o carro e lhe matar o cão. 

Sim. O cão. Este filme, de 101 minutos, baseia-se na raiva que o John Wick sente depois de um grupo de russos com muito pouca idade e muito pouca vergonha na cara lhe matarem o cão. Pode parecer ridículo, mas tudo tem uma lógica aqui: a verdade é que Daisy, a cadela de Wick, tinha sido o último presente oferecido pela sua agora falecida mulher. Pois. Morre-lhe a mulher e morre-lhe a cadela e Wick fica louco.

Pode parecer que estou a tentar tornar a história um pouco mais tonta do que é na verdade, mas isto é mesmo o que acontece. E eu não teria escolhido maneira melhor de apresentar a história. 

O filme é fabuloso da forma que é feito; ao início é complicado perceber todas as coisas que nos apresentam (a morte de Helen Wick, a cadela, o gangue russo, o passado de John Wick) porque o filme rapidamente ganha um ritmo acelerado. Mas a beleza de John Wick é essa mesma; é haver sempre alguma coisa que fica por responder, como é o caso da história do hotel Continental, aparentemente um esconderijo para assassinos profissionais, ou o significado das moedas douradas que são usadas como moeda corrente entre esses mesmos assassinos. O público não é burro (não a maioria, pelo menos) e consegue perfeitamente entender o que é preciso sem que tudo seja explicado detalhe a detalhe. John Wick explica o suficiente, mas deixa também o suficiente à espera de ser descoberto pelos espectadores (e, de forma inteligente, deixa também espaço para uma sequela... que estreou há duas semanas nos Estados Unidos). A história parece-nos verdadeira, mesmo quando nos falam de assassinos que dormem num hotel onde lhes fornecem médicos em caso de ferimentos e um serviço de roupa lavada para tirar as manchas de sangue. Algo na forma como a história é contada nos faz acreditar que o Continental pode existir algures no mundo e que John Wick pode ser o meu vizinho do lado. John Wick pode ser qualquer pessoa.

A beleza de John Wick pode ser observada também na forma como, aleluia, deixaram finalmente que o herói do filme chorasse em frente à câmara ou parecesse vulnerável durante vários momentos. Wick é um ex-assassino temido por todos os que estão no mesmo ramo de negócios, mas também tem fragilidades porque é apenas humano - e são poucos os filmes de acção em Hollywood que se permitem mostrar isso.


Keanu Reeves foi a escolha perfeita para John Wick; ninguém teria feito um melhor trabalho a misturar a frieza de um assassino com a fragilidade de alguém que acabou de perder o amor da sua vida... e um cão. Provavelmente, também ninguém conseguiria manter uma aparência tão bonita enquanto se tem cortes debaixo dos olhos, no queixo e no nariz (e este não seria um artigo escrito por mim se eu não mostrasse que tinha alguma paixoneta por um dos actores... onde raio é que o Keanu já tem 52 anos?).



Em resumo: John Wick foi dos melhores filmes de acção que vi nos últimos tempos. (E sim, já o tinha visto uma vês antes desta semana - mas só agora o vi com a atenção que ele merece.) Não tem comédia forçada nem piadolas rascas; tem muita violência, tem sangue e acima de tudo, tem realidade. Keanu Reeves não só convence como nos faz apaixonar por John Wick, mesmo quando se torna óbvio que ele tem um passado muito negro. Actores como Willem Dafoe e Ian McShane, apesar de aparecerem pouco tempo no ecrã, roubam as atenções sempre que estão presentes. Daqui a uns dias, vou ver o John Wick 2 de coração cheio.

Point Break (2015)
Personagem emprestada ao Payday 2: Bodhi

Este era um filme que prometia muito e ofereceu muito - só não ofereceu aquilo que prometia. Point Break é o remake de um filme de 1991 com o mesmo nome, com Patrick Swayze e, adivinhem, Keanu Reeves. Como costuma ser hábito nos filmes recentes de Hollywood, os remakes muito raramente se parecem em alguma coisa com os filmes originais; mantem-se o nome das personagens e a aparência, muda-se a história e chama-se a isto remake, só para não se ter o trabalho de arranjar personagens novas para uma história diferente.

Point Break (o de 2015) nem a aparência das personagens consegue manter.

Point Break (1991). Esquerda para a direita: Johnny Utah (Keanu Reeves) e Bodhi (Patrick Swayze)

Point Break (2015). Esquerda para a direita: Bodhi (Édgar Ramírez) e Johnny Utah (Luke Bracey)

Não sou só eu que vejo a ironia no facto de terem quase literalmente trocado a aparência das personagens principais num remake, pois não?

Bem. Pode parecer neste momento que vos vou dizer todas as razões pelas quais eu não gostei do filme, mas não é isso que vou fazer. Nunca fui uma grande fã do Point Break original, apesar de muitos considerarem esse um filme de culto. Já o remake fez o me coração saltar do peito mais do que uma vez - e não, não foi só porque Édgar Ramírez estava no ecrã. Point Break conta-nos a história de um ex-poliatleta que entra para o FBI depois da morte de um colega. Esse poliatleta é Johnny Utah. Ora, Utah vê-se envolvido na investigação de um grupo de golpes que têm acontecido em vários locais do mundo e rapidamente descobre que esses golpes estão a ser feitos por um grupo de pessoas que estão a tentar completar uma lista chamada "Ozaki 8".

Daqui para a frente, a história só complica; mas, em resumo, os Ozaki 8 são oito provações que honram as forças da natureza. Essas provações incluem saltar da base do Monte Everest, escalar uma falésia sem qualquer equipamento de segurança (Bodhi decide escalar a queda de água de Angel Falls... que tem mais de 900 metros) ou surfar uma onda com mais de 25 metros. Pois. São provações, mesmo.


Mas aquilo de que quero realmente falar é a mensagem (ou as mensagens) que o filme vai passando, mensagens essas que nada têm a ver com o filme original de 1991.

"We're all gonna die; the only question is how."
(Vamos todos a morrer; a única questão é como.)

"We are only responsible for our own path, and let others have theirs."
(Nós somos apenas responsáveis pelo nosso caminho, e temos de deixar os outros ter o deles.)

Estas são apenas duas frases que escolhi para ilustrar a ideia base do filme, mas Bodhi, e os seus amigos, têm outras que vão na mesma onda. Bodhi é uma das pessoas a tentar completar os Ozaki 8 e acredita verdadeiramente que está a seguir o caminho que ele escolheu; quando um dos seus amigos morre a tentar completar a mesma lista, Utah torna-se agressivo e acusa Bodhi de estar a levar os amigos na direcção da morte. No entanto, Bodhi insiste que foram eles que escolheram o seu caminho - foram eles que escolheram estar ali, a tentar completar a lista, e, por isso, a morte de qualquer outra pessoa nunca estaria nas suas mãos, mas nas deles.

Por muito errado que seja esse pensamento, a ideia original faz todo o sentido: não podemos mudar aquilo que os outros fazem com a sua vida, mas podemos mudar aquilo que decidimos fazer com a nossa.

Quanto aos actores, e as personagens, é suposto acreditarmos que Johnny Utah é a personagem principal, uma vez que o filme se centra na sua própria viagem interior, em busca de realização pessoal, e nas suas contradições. Mas Luke Bracey, por muito fofo que seja, não tem presença suficiente para nos fazer ganhar empatia com ele - Bodhi, que comete crimes e é viciado em adrenalina, é uma personagem com quem nos identificamos muito mais, apesar de tudo, e isso pode muito bem derivar da presença de Édgar Ramírez, que é um actor cheio e que torna o seu papel muito real e credível.


Em resumo: Point Break foi, por muitos, considerado um dos piores remakes de sempre. É possível que seja verdade. Point Break é um filme fabuloso quando visto como filme separado e em nada relacionado com o seu homónimo de 1991. É um filme cheio de adrenalina e de acção e qualquer pessoa apaixonada pela natureza não teria, certamente, problema nenhum em ver isto do início ao fim. Eu mesma voltaria a ver este filme vezes e vezes sem conta. Um esforço extra de Luke Bracey para tornar Johnny Utah mais interessante e este filme estaria no meu Top 10 de filmes favoritos.

Hardcore Henry (2016)
Personagem emprestada ao Payday 2: Jimmy

Hardcore Henry foi, para mim, uma surpresa agradável. Foi quase inteiramente gravado numa perspectiva de primeira pessoa, o que parece, em princípio, uma premissa interessante. 

Não há actores grandes (talvez com a excepção de Sharlto Copley), nem grandes nomes de realizadores ou produtores; há apenas uma grande vontade de gente pequena fazer um filme grande. Ilya Naishuller (realizador) tem um historial de criar narrativas numa visão de primeira pessoa; membro da banda Biting Elbows, foi ele que realizou os videoclipes "The Stampede" e "Bad Motherfucker", ambos gravados na primeira pessoa. Mais recentemente, também realizou o videoclipe do The Weeknd, "False Alarm"... também ele na primeira pessoa. Não seria de estranhar que conseguisse fazer bem um filme completo na primeira pessoa.

A história de Hardcore Henry é por vezes estranha e confusa; a personagem principal, Henry, acorda num laboratório sem se lembrar de nada da sua vida. Aí, conhece Estelle, que se apresenta como sendo cientista e a sua mulher e que lhe diz que ele teve um acidente que o deixou sem memória e sem voz. Depois de lhe serem colocadas duas próteses (uma perna e um braço), Henry vê-se em perigo quando o laboratório é atacado por Akan, um homem com poderes psicocinéticos.

Pelo caminho, Estelle é raptada e Henry tenta, durante o resto do filme, procurá-la e salvá-la, enquanto tenta impedir Akan de criar um exército quase robótico. É durante essa busca que Henry conhece aquela que é, na minha opinião, a melhor personagem de todo o filme: Jimmy. 

Jimmy é um nada mais que um homem com uma dose muito elevada de loucura e de genialidade (sim, ao mesmo tempo); tão depressa explica a Henry tudo aquilo que precisa de saber sobre o seu novo corpo como se mete a comer cocaína. Sim. A comer. Não só isso: Jimmy tem clones




Sim. Estes são todos clones do Jimmy. E ele tem muitos mais, também.

No fim do filme existe um twist que, honestamente, me deixou mais confusa do que feliz por haver um twist - mas ao menos o filme não foi previsível, o que já não é mau. Akan, o vilão do filme, também não é nada previsível; e não há nada melhor do que um vilão cujas acções são sempre inesperadas. Gosto dos meus vilões assim, loucos, com um bom acento e com planos para dominar o mundo enquanto eu estou a dormir.

E é isso mesmo; Akan e Jimmy, duas personagens tão diferentes mais igualmente loucas, são quem salva este filme de ser apenas um low-budget filme com uma premissa interesante.


Em resumo: Dos três filmes que vi, este foi o que menos me impressionou. Não foi mau, nem foi excelente. Foi simplesmente intermédio. A personagem principal tem uma história inexistente, pelo que não tenho vontade de sentir nada por ele nem nada contra ele. O nome dele é Henry e o resto não é história. Jimmy e Akan salvam o filme da desgraça, mas não o impedem de ser apenas mais um filme que tinha muito para dar... e não deu. Talvez com um maior financiamento (teve um financiamento de menos de três milhões de dólares), tivesse feito muito maior. Para o dinheiro que tinha, fez muito bem. Fez coisas novas e diferentes daquilo que se faz, tão mal, em Hollywood hoje em dia. Foi bom. Voltava a ver de bom grado. Só não foi excelente.

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