Limonada? Não, limões!


As pessoas normais evitam ao máximo os maus dias. Repudiam-nos. Gritam "por favor mantenham-se longe". Quando eles chegam, choram. Deprimem. Deixam de ver sentido na vida. Viram filósofos e perguntam "o que é que eu ando aqui a fazer, afinal?".



Seria hipócrita se dissesse que não repudio os maus momentos. Que não tenho vontade de viver num mar só de câmaras e piadas porcas. Mas sei que isso é impossível, nem que seja pelo facto de ser, acima de tudo, muitíssimo realista. E de saber que ninguém leva uma vida perfeita (à excepção daquele senhor na vossa escola cujo único propósito é ensinar-vos como dobrar fios de headphones). Portanto, quando a vida me dá limões, eu não faço limonada porque isso, apesar de tornar uma experiência amarga em algo mais doce, também transformar a experiência em algo que ela não é.

Não; quando a vida me dá limões, eu como os bichos assim mesmo. Crus. Sem adição de água nem açúcar. Só assim, azedos, amargos, fortes.

Primeiro, porque adoro limões. Era capaz de comer aquilo todos os dias, como quem como laranjas, se me deixassem. E segundo, porque é aquele sabor que me vacina para o resto. É aquele sabor que, quando como aquela comida deslavada de hospital, me faz dizer "sê forte, já comeste pior".

Porque é verdade. Já comi pior. E sobrevivi.

Então, sim, é aqui, no meio de lamechices sobre a vida e sobre limões que me permito admitir duas afirmações óbvias:
  1. ontem foi um dia mau;
  2. limões e dias maus são (para mim) iguais.
Indo por partes: ontem foi um dia mau. Não bastasse já ser Quinta-feira, que não é bem meio da semana mas também não é fim, ainda, foi dia de ver coisas para as quais trabalhei muito (demasiado) serem deitadas ao chão. Ouvi a frase "vais ter de começar de novo" demasiadas vezes. Num local onde eu era, sem qualquer egocentrismo, a estrela do show, disseram-me "então, eras tão boa nisto... o que é que te aconteceu?". Num sítio onde há semanas eu era a melhor, passei a ser a pior. Amargou. Sim. Deixou saborzinho nojento na boca e a garganta a arder? Claro. Já comi pior? Sem dúvida.

Portanto eu uso as experiências negativas para isto. Para melhorar. E para me lembrar de que já passei por muito pior. De que consigo passar por cima disto e ignorar e fazer melhor para a próxima. Os maus dias não duram para sempre.
Ontem foi um dia mau. E podia ter sido pior. Mas isso não invalida o meu sofrimento. Ontem foi um dia mau. E hoje foi um dia bom. Porquê? Porque acordei e disse a mim mesma que não ia deixar que fosse de outra forma.

Voltei à carga. Se eu usasse a palavra "apaixonar", tinha-me apaixonado. Mas não uso. (Então vou simplesmente dizer que interagi com pessoas - uma pessoa, na verdade- que sabem como mexer com aquele órgão que trata de grande parte da nossa circulação.) Ri muito. Trabalhei muito. Almocei quase às cinco da tarde, mas por uma boa razão. Porque trabalhei. E valeu a pena. 

Os dias maus existem para isto. Para podermos reconhecer quando temos um dia bom.

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