Jornalismo (F)útil


Sou estudante de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Se me perguntarem porque é que fui para lá, eu não sei; se me perguntarem se gosto de lá estar, eu digo que não. E gosto de Jornalismo? Pois...

Não vivemos num mundo a preto e branco, apesar de eu ter tido colegas no secundário que diziam que o cinzento não existe. Vão bugiar, colegas; o que não existe é o branco escuro ou o preto clarinho - existe cinzento, que não é uma cor nem é outra. É cinzento, simplesmente.

E, portanto, não sei explicar a minha relação com o Jornalismo. Nos dias normais, digo aos professores "estou mal neste curso e devia estar em Audiovisual e Multimédia", porque é fácil de explicar. Mas a verdade é muito mais complicada do que isso.

A verdade é que tive professores que me fizeram odiar a profissão, porque me disseram que o número de carros que o Cristiano Ronaldo tem é uma notícia importante (e isto não tem nada a ver com o facto de eu preferir o Messi ao Ronaldo; se me falassem no número de carros do Messi, ficava igualmente indignada); professores que me fizeram odiar a profissão porque me disseram o oposto - o Ronaldo não importa de todo, política e economia é que é. Professores que se esforçaram para me fazer acreditar que o Jornalismo é só rádio e imprensa escrita. Que a televisão é show, é entretenimento, é o jornal de quem é demasiado burro para ler e que nós, jornalistas, temos o dever de continuar a contribuir para o emburrecimento da população.

Em resumo: odiei esses professores e, por consequência, passei a odiar Jornalismo. E passei dois anos, de um curso de três, a odiar Jornalismo. Até chegar ao último ano e ter pessoas que finalmente me ensinam que o Jornalismo não é só política nem economia nem Cristiano Ronaldo. Nem rádio e imprensa escrita.

"Quero ir para Audiovisual."
"Mas tu não queres contar histórias?"
"Quero."
"Então estás no sítio certo."


(Disclaimer: esta foi uma conversa real, numa aula de terceiro ano. Sim, é verídico que eu tive de esperar três anos para finalmente ter um professor a dizer-me isto.)

Jornalismo também é fotografia. Jornalismo também é pegar numa câmara e filmar as coisas sobre as quais os outros estão a escrever. O Jornalismo também é visual e isso não implica só escrever uma reportagem em que descrevo a cor de uma casa, a localização de um café e a roupa do meu entrevistado. O Jornalismo não precisa sempre de ter a minha voz ou a minha caneta; o Jornalismo não é só filmar o António Costa a sair do Parlamento ou tirar uma foto ao António Domingues; ir para o Árctico e filmar o degelo é Jornalismo. Andar por Portugal e Espanha a documentar a população de lobos-ibéricos também pode ser Jornalismo.

E é isto que não me ensinam. O que fazem é dizer-me que Jornalismo é aquilo que os professores de Jornalismo querem que seja; e os professores acham que nada para além de política importa. Moda é fútil, cultura é interessante, mas em Portugal é fraca, desporto só importa se for futebol, notícias locais são boas para o Badaladas. As histórias boas são aquelas que eles fariam, não aquelas que eu quero contar.

Agora, no último ano de Jornalismo e a um semestre de ser atirada ao buraco sem fim que é a procura de um emprego, percebi que o Jornalismo é mais do que aquilo que as pessoas na Escola Superior de Comunicação Social me dizem que é. Eu continuo a ser uma rapariga de Audiovisual e Multimédia. Continuo a ser uma rapariga de câmaras e objectivas, em vez de microfones e canetas. Mas isso não significa que não saiba ser Jornalista também.

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