Irónica, eu? Nunca!


Vou admitir aqui, neste blogue, no meu quarto dia de escrita, que sou uma pessoa muito pouco nobre. E, verdadeiramente, vivo bem com isso.


A minha fraca nobreza nota-se um bocadinho em todo o lado: nas asneiradas que me saem pela boca sempre que bato com uma perna na mesa; na minha falta de tacto quando me dizem "o meu namorado acabou tudo comigo" e eu pergunto "e então, não existe mais peixe no mar ou já não sabes pescar?"; no meu sentido de humor, que vai desde uma piada sobre loiras num café até à piada sobre bebés mortos. Há mais onde procurar - mas acho que já entenderam o que quero dizer.

Então, voltando um passo atrás: vivo muito bem com a minha falta de tacto. O resto do mundo, nem por isso.

E quando falo em resto do mundo, falo especificamente em pais. Amigos. Professores. É particularmente difícil lidar com os últimos quando se tem um feitio como o meu e a vontade de partir a cara a toda a gente é grande. Muito grande. Particularmente grande quando apanho professores que apenas o são porque alguém (não sei quem) acha que bom profissional equivale imediatamente a bom professor.

Geralmente, o resultado disto é que acabo por passar grande parte do tempo calada. As pessoas acham que não tenho nada para dizer; na verdade, estou a impedir-me de começar a chamar-lhes todos os nomes que aprendi em pequena a não dizer. Quando falo, costuma dar problema, porque o mundo nunca está preparado para ouvir aquilo que sai da minha boca. Ou é demasiado irónico ou demasiado sarcástico ou demasiado honesto. Não há meio termo - ou te odeio ou te adoro. Geralmente é a primeira opção, porque o grupo de seres de quem gosto está neste momento reduzido a cerca de dois cães, um canário, um porquinho da Índia, dez pessoas e um professor (reparem como coloquei a categoria de professor separada da categoria de pessoas. É propositado. São uma espécie à parte).

Eu não gosto de pessoas. Se tiver de ser completamente honesta, tenho de dizer que sou meio misantropa. Mas não me dá jeito nenhum andar a gritar pelos quatro cantos do mundo que odeio pessoas e aquilo que elas representam - então uso sarcasmo e ironia como forma de mascarar o meu nojo profundo pelas atitudes de grande parte da população. 

[ Addendum: sou uma pessoa particularmente complexa. Portanto, tanto posso usar sarcasmo e ironia com pessoas que odeio como posso usar sarcasmo e ironia com pessoas que adoro do fundo do coração. Não é possível distinguir os dois a não ser que eu diga directamente "gosto de ti" ou "não gosto de ti", o que nunca acontece. ]

O meu inerente mau feitio acaba por resultar, inevitavelmente, em duas reacções: em desconforto ou em diversão. Como já expliquei, uma grande parte das pessoas não gosta disto. A minha mãe detesta que diga tudo ao contrário do que quero dizer, detesta que eu me esteja a rir na cara dela quando ela está a falar de coisas sérias, detesta que eu faça piadas sobre funerais (já aconteceu, não me arrependo). E geralmente todas as outras pessoas detestam isso também; acham má educação, acham que sou rude, que sou louca, que sou tão  que podia morrer só de morder a língua. A minha mãe repete vezes sem conta "vais acabar sozinha. Ninguém está para aturar esse feitio".

Aqui atrevo-me a falar no segundo tipo de pessoas: aquelas que são iguais a mim. Com essas dou-me bem; eu sou rude e sou louca e sou viperina - chamo nomes, gozo com a incompetência, insisto na falta de bom gosto. Em retorno, os outros também são rudes para mim e também me chamam nomes e gozam com a minha incompetência e com a minha falta de bom gosto. É aí que reside o nicho de pessoas com quem até consigo lidar. Nunca ouviram a frase "quanto mais me bates mais eu gosto de ti"? Aplica-se perfeitamente a mim. Tratem-me mal, a sério. Sejam mauzinhos. Nem precisam de ter classe - podem ser brejeiros, que eu aceito. 

Desde que me deixem ser mázinha de volta, podemos tornar-nos melhores amigos.

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