És tu


A minha casa gélida não perdoa. Sento-me na cadeira, em frente ao computador e a uma página branca, e os arrepios de frio são os primeiros a atacar. A chuva bate no vidro e os carros passam lá fora, mesmo em frente à minha janela, mas não param. Há vidas para viver, trabalhos para fazer, pessoas para ver. E eu continuo aqui, sentada, enquanto o mundo corre à minha volta. É em ti que eu penso quando os meus dedos estalam e se preparam para escrever mais um texto.

Não gosto do frio – não consigo escrever com as mãos geladas e escrever é a única coisa que me afaga a alma. O frio é demasiado próximo de mim. É de demasiado familiar e o meu coração – pobre coitado, habituado já a ser chamado gelado, pedra, frio – não sabe lidar com isso. A chuva é mais confortável; o barulho acalma-me e traz um pouco mais de calor, também. É em ti que eu penso quando o meu coração aperta no peito nos dias frios.

É em ti que eu penso, agora. Enquanto escrevo este texto e as palavras “tens de o esquecer” se prendem a mim, é em ti que eu penso. Quando vejo aquele senhor, grisalho, a segurar o chapéu para que a sua senhora, grisalha, não se molhe debaixo da chuva imparável, a deixar que a água o ensope a ele para que não tenha de ser ela a sofrer; quando falam nos números dos casamentos ou dos divórcios nos últimos anos, quando as tias dizem que a juventude já não sabe amar e que hoje em dia tudo passa,  tudo é efémero - é em ti que eu penso. 

Não me assusta a ideia de não me lembrar de ti em Maio, ou de me esquecer que era o teu riso que animava as minhas semanas de sofrimento, enfiada em salas que começavam a assemelhar-se demasiado com o meu quarto ou à minha sala de estar; não tenho medo de esquecer que o teu perfume me drogava os sentidos quando ainda nem estavas próximo de mim ou que foi contigo que aprendi que o ódio e o amor são gémeos siameses, não parentes afastados. Não me aflige pensar que posso chegar a casa daqui a um ano e já não me lembrar de que os teus pais não deviam gostar de ti para te terem escolhido um segundo nome tão mau ou de que temos demasiados gostos em comum.

O que me mete medo é lembrar-me; é saber que daqui por três meses posso continuar sentada nesta cadeira a lembrar-me do dia em que brincaste durante meia hora com o meu marcador de livros e o cheiro do teu perfume ficou lá ou do dia em que, apesar de ocupado, tiraste meia hora do teu dia para estar comigo e  comigo e me obrigaste a explicar-te porque é que eu odeio café tão profundamente. O meu medo é daqui por seis meses eu continuar a lembrar-me daquela vez que estavas atrasado para todos os teus afazeres mas ainda assim foste ter comigo num momento em que eu estava cansada e stressada só para me dar apoio moral ou de que já ficaste durante horas a falar comigo sobre as tuas avós e os teus tios e aquela casa na floresta que era perfeita para nós, pessoas com maus-feitios que têm gostos peculiares e só encontram paz na natureza. O meu medo é estar num autocarro, daqui por um ano, e lembrar-me daquela vez em que me deste boleia para o Campo Grande e desligaste a Rádio Comercial só para me ouvires falar (a sério, adoro-te, mas nunca desligaria a rádio para te ouvir) e de que acabámos meio a discutir meio a rir porque te enganaste no caminho e eu insistia que estavas a ir para uma estrada de sentido proíbido (eu estava errada e admiti na altura; percebe que isso é raro em mim e entende que isso significa que és especial).


O meu medo é lembrar-me. O meu medo é ter de reviver essas memórias, vê-las a passar na minha cabeça sem ser capaz de criar novas, mais felizes. É lembrar-me de quão suave estava a tua cara quando me cumprimentaste um dia sem conseguir saber se os teus lábios são igualmente suaves. É lembrar-me do cheiro do teu perfume sem nunca conseguir saber qual é o teu cheiro quando acordas de manhã ou quando acabas de tomar banho. 

Não me importava de te esquecer. Provavelmente era menos doloroso do que ter de ver-te todos os dias e saber quem és. Às vezes dou por mim a desejar que fosses rude para mim ou que me tratasses mal, só para poder odiar-te (lembra-te, eu costumava querer-te longe de mim. Quando te conheci, foste mau. Discutimos. Eu não queria sequer pensar em ti. Agora dava um ano de vida para poder voltar a isso). Mas nunca és. Mesmo quando erras, mesmo quando digo a toda a gente que és estúpido e incompetente e que devias pensar bem antes de fazer promessas porque acabas por nunca as cumprir, continuo a pensar em ti. E às vezes odeio-te, odeio-te muito, odeio-te tanto, odeio-te demasiado, mas basta dizeres o meu nome com um sorriso e eu volto a adorar-te e a lembrar-me de ti.

E que raio posso eu fazer quanto a isso se não continuar a pensar em ti, sempre?

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