ABC do Desapaixonanço


Recentemente, devido a questões do foro emocional, entendi que não me apaixono.




E não, não estou a assumir que não me sinto emocionalmente atraída por ninguém (isso seria o sonho de uma vida, mas é, infelizmente, bastante mentira). E também não vos vou contar aquela velha história do “uma vez apanhei uma desilusão de amor e desde aí nunca mais me apaixonei”. Porque seria mentira. Já apanhei desilusões e continuo aqui, a perseguir touros que gostam demasiado de me dar cornadas (piada de Zodíaco completamente intencional).

Assim sendo: eu não me apaixono.  Vivo antes autênticos filmes de Hollywood. Vivo o “ABC da Sedução” de cada vez que me aproximo de alguém do sexto oposto; só que eu não sou a Abby Richter, sonhadora, que acredita em almas gémeas e no príncipe encantado. Eu sou o Mike Chadway, cínico, arrogante e mal-humorado. Faço piadas sexuais quando alguém mexe num microfone – estando eu no curso de Jornalismo, diga-se, isto é recorrente. Esforço-me por repetir que o princípe encantado não passa de uma construção social criada por livros de contos de fadas;  a única coisa que existe é alguém que te vai fazer sentir bem durante uns meses e depois te vai deixar a morrer num beco escuro.

E tal Scarlett do G.I.Joe, acredito que o amor “é uma emoção. As emoções não são baseadas em ciência. E se não conseguimos quantificar nem provar que algo existe, então, na minha cabeça, não existe”.

Mas todos sabemos onde esta gente acaba. O Chadway acaba num balão de ar quente a explicar o quão perdido de amores está por Abby, apesar de odiar o conceito. E Scarlett acaba a dar um beijo de boa sorte a Ripcord, apesar de não conseguir quantificar nem provar a sua atracção.

Nunca andei de balão de ar quente (graças a todos os santos, porque o meu medo de alturas não ia permitir que fosse uma viagem divertida), nem nunca desejei boa sorte ao Ripcord (disto já não gosto; onde é que se assinam os abaixo-assinados para beijar personagens fictícias?), mas a ideia base está na mesa.

O amor é uma merda. Com todas as letras. Tu arrancas cabelos, choras, gritas, arrancas mais cabelos, desesperas, esperas, esperas pouco, esperas muito, tens demasiada paciência ou não tens nenhuma. Isto tudo ainda antes de perceberes que te apaixonaste. E depois de perceberes, desesperas mais. Choras mais. Ficas desidratada. Arrancas mais uns cabelos. Ficas careca. Esperas mais. Morres de velhice com tanta espera.

Então eu não me apaixono. Nunca. Não uso a palavra, porque isso seria um reconhecimento de que sim, eu choro, sim, eu desespero, sim, eu espero. Um reconhecimento de que sim, eu sofro. E se há coisa que a Marta, duplamente Capricórnio (de signo e de lua, veja-se bem), cínica, arrogante, mal-humorada, nunca admite é que sofre.

A Marta, duplamente capricorniana, não persegue o amor. O amor tenta persegui-la a ela, mas ela foge. Só que nem sempre consegue. Então a Marta dá por ela a correr atrás de alguém que nem parece estar a querer fugir; alguns chamariam isto de engate ou de “início de uma bela relação”; a Marta chama isto de “a sua futura morte”.

Há sempre um problema acrescido: antes da morte (lembrem-se, é sinónimo para paixão), vem o ódio. Antes de adorar, odeio profundamente.

Odeio-te, porque és parvo, odeio-te porque és arrogante, odeio-te porque és estúpido, odeio-te porque não devias estar aqui. Mas estás. E eu odeio-te tanto que até conseguia gostar de ti (sim, estou a parafrasear o 10 Coisas que Odeio em Ti. Não, não estava a exagerar quando disse que as minhas relações amorosas estão incrivelmente próximas de filmes de Hollywood).

Surge aqui o momento em que, por alma do Espírito Santo, o ódio até é mútuo. E alguém me odeia porque sou parva e arrogante e estúpida e não devia estar ali, mas estou. E alguém me odeia tanto que até podia gostar de mim. É aqui, neste momento, pequenino, tímido, que, por vezes, a presa da Marta retribui os sentimentos (que coisa mais feia de se dizer). Aí, as pessoas dizem “que belo amor!”; a Marta antes diz “que bela morte!”.
Pelo menos morri correspondida.

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